16/12/2015

» II OUTONO CULTURAL (junt' aberta)

(2015.12.05) Auditório APDL

"Lendas de Matosinhos e Leça"

Quero agradecer à organização deste evento e a todo o auditório. Foi com imenso prazer que aceitei estar presente juntamente com um painel de ilustres oradores!

Admito que o meu instinto, após receber o convite com indicação do tema, foi basear a minha pesquisa nos locais assombrados. Desisti da ideia pois achei que era melhor estar quietinho e pensar noutro. Não se adequava muito ao tema em questão… Não foi muito convincente, pois não?! Têm razão. A verdade é que a nossa mente resolve pregar partidas e por cada característica encontrada nos prédios assombrados, olhava e redor e parece que os sentia! Pancadas na parede, barulho de portas e sons estridentes durante a madrugada, objectos que desaparecem… até estou arrepiado! Depois lembrei-me! Que raio queria eu?! Moro por cima de uma padaria, em frente à linha do metro e tenho, em casa, uma filha com 7 anos! Pronto, mistério resolvido! Matei esta lenda à nascença.

Mas, afinal, o que são lendas? 
São narrativas fantasiosas transmitidas pela tradição oral através dos tempos. As lendas combinam factos reais e históricos com factos irreais que são meramente produto da imaginação aventureira humana. Uma lenda pode ser também verdadeira, o que é muito importante! 

Com exemplos bem definidos em todos os países, as lendas geralmente fornecem explicações plausíveis, e até certo ponto aceitáveis, para coisas que não têm explicações científicas comprovadas, como acontecimentos misteriosos e sobrenaturais. Mas quem conta um conto acrescenta um ponto. Com o passar das gerações sofrem alterações à medida que são contadas. E ignora-se a parte que não interessa. Porque uma lenda pode ser um conto motivador e aglutinador de um povo ou comunidade. É essencial ter algo em que se acredita! Mesmo que haja algumas falhas… 

Alguns exemplos concretos. 
Estamos, pacientemente, à espera do regresso d’ el rei D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro. O nevoeiro tem aparecido. O rei é que nem por isso. Confesso que seria estranho. O homem terá, por estes dias, qualquer coisa como 437 anos. Sinceramente, se ainda não apareceu até hoje, será melhor cancelar as buscas… 

Temos também o caso da lenda (para alguns maldição) que um treinador estrangeiro lançou a um clube português. Bastou uma frase: “Nem em cem anos o Benfica vai conquistar outra taça europeia”. Com intenção ou não, a verdade é que, com o passar dos anos, a lenda interiorizou-se na cultura benfiquista e, cada vez, mais começou a fazer sentido para os adeptos. Ao ponto de já terem tentado, por diversas vezes, quebrar a maldição. Mas, as tentativas são fora do relvado, porque lá dentro a coisa não parece resultar… 

Todo este conhecimento popular é transmitido ao longo de gerações. Agarramo-nos a esta sabedoria caseira, de origem incerta, para tentar explicar o que não conseguimos. Também se utiliza como uma história tenebrosa para impedir uma acção quando um simples não, já não resulta. Os pais fazem isto constantemente aos filhos. «Olha que se não comeres a sopa, vem o Papão!» Como se algum bicho peludo e esquisito fosse saltar da tigela. Nem ele a quer comer… 

«À noite todos os gatos são pardos» 
«À noite não assobies pois ele parte». 
«Vai buscar as maias no dia Trabalhador».
Por que razão?! - O oculto! Ou o mafarrico!
E o que acontece?! - Coisas más!
Que coisas más?! - Tá calado, pá! Porra lá para o miúdo sempre a fazer perguntas! Arre!

Basicamente é isto. Quase como um aluno que decora as frases que vai utilizar num teste. Não percebeu, mas limita-se a despejar informação e quando alguma coisa falha… deixa de ter respostas porque acreditou cegamente em algo que leu. Com estas lendas é o mesmo. Não o faças… e mais nada! Sem perguntas.

Muitos historiadores afirmam que as lendas são fruto da imaginação popular. Contudo, em muitos povos são considerados os livros na memória dos mais sábios. As lendas são réstias de esperança. Relatos que influenciam as populações em prol de algo que contribua para a sua felicidade e até mesmo deixá-los mais próximos do Divino. Cada cidade ostenta, graciosamente, uma (ou mais lendas) como símbolo da sua cronologia. O galo de Barcelos, a justiça de Fafe, as aparições em Fátima, a Nazaré, entre tantas outras…

Matosinhos e Leça, não são excepção. 
Caio Carpo, Senhor de Matosinhos, Senhor Bem Cheiroso (Leça Balio), Homem da Maça (S.Cruz Bispo), entre tantas outras. Mas esta apresentação, sobre as lendas de Matosinhos e Leça, pretende abordar a temática de algo que marca as duas localidades: o Rio Leça e suas margens. 

A água doce é provavelmente o elemento ao qual o homem mais atribuiu símbolos na história. Porque é dela que o homem depende directamente, então o sagrado está muito ligado ao aparecimento e uso da água doce. A maioria dos santos católicos aparece em grutas e fontes de água doce. (neste ponto é curioso verificar que, regra geral, a divindade feminina está aqui bem representada. A parte masculina, mais viril, vai para os oceanos e mares enfrentar as tempestades e ventanias). É o elemento que traz a vida e que também a pode tirar. Pode causar acidentes, estragos e morte. A água é um elemento ambíguo. É importante, é sagrada mas ao mesmo tempo, pode ser doce e perigosa. 

Permitam-me que vos direccione para um lugar em particular. A Ponte do Carro. Por lá passaram muitos caminhantes em direcção a Santiago de Compostela. É um lugar que acompanho desde tenra idade. Há muitas recordações felizes do lugar. Os banhos, a pescaria, os piqueniques, a pureza da água, os moinhos. Já não presenciei tal cenário. Quando tive contacto com o Rio Leça, o cenário que acabei de descrever tinha já sido alterado pela indústria poluidora que o descaracterizou por completo e afastou as pessoas das suas margens. Apesar de ter recebido obras de requalificação ambiental é verdade que está bastante esquecido na memória colectiva. Cenários macabros e sinistros… que propiciam o aparecimento de lendas! 

Quero partilhar convosco dois testemunhos, registados em vídeo e utilizados no documentário “In Matosinhos”, da minha autoria. Testemunhos reais de eventos que carecem de explicação lógica, científica e racional. Joaquim Correia contou que, graças às boas condições económicas da ditadura Salazarista, deslocava-se para o emprego de bicicleta. Como a última parte do percurso é composta por uma subida bastante acentuada, a solução encontrada foi desmontar e levar a bicicleta à mão. Passear a bicicleta! Segundo conta, mal saía da bicicleta, recebia a visita dum gato que o acompanhava por todo o comprimento da rua, até ao topo. Depois disso, desaparecia. Isto repetia-se todos os dias. Úteis, é claro. 

Joaquim Gomes contou que, na mesma altura política, uma certa noite regressava a casa depois de mais um encontro amoroso, com a sua actual esposa! Que fique bem claro, pois não quero arranjar problemas! Encontrou uma criança no alpendre de uma casa abandonada junto à margem do rio. Apesar de inebriado pelo amor, estranhou pois era uma noite fria de Inverno e a criança – que estava completamente nua, gelada e sozinha – não chorava. E se não chora é deixá-la estar… 

Certamente, cada um de nós, lida com o misticismo à sua maneira. Depende do seu grau de fé. Para mim, o Sr. Correia, graças ao gato que gostava de caminhadas, até subiu a rua sem fazer tanto esforço. Mesmo acelerando o passo com a bicicleta pela mão. O Sr. Gomes, graças à criança, começou a chegar mais cedo a casa e a pensar no futuro. Pois em plena fase de namoro, um acto mais irreflectido teria como resultado… uma criança. Em ambos os casos, a lenda, ou esta demonstração mística, até os ajudou bastante! 

Mas há mais lendas… 
Quando D.Pedro IV e suas tropas desembarcaram em Pampelido, procuraram alimentar-se recorrendo a uma taberna existente no local. Foi servida a ementa dos 3F’s. «Fanecas Frescas Fritas». Segundo a lenda, depois de comer, el rei não queria pagar. Mas o taberneiro com seu olhar fustigante e irritado fez pensar o oficial que acabou por lhe oferecer duas moedas de ouro como prenda de casamento. A partir de então, à ementa juntou-se mais um F que se tornou expressão bastante conhecida: Fanecas Frescas Fritas e Fiadas. 

Serafim e Grua, que em crianças brincavam junto de uma poça de água, foram separados pelo tempo e pela vida. Reencontraram-se já em idade adulta e construíram, no lugar do Ribeirinho, em 1863, uma fonte representativa da sua amizade e reencontro. A Fonte dos dois amigos. 

Há relatos de pescadores que viram sinais divinos em alturas de aflição. Pessoas que foram esbofeteadas, quando se deslocavam a pé, apenas por se voltarem. Alguns locais garantem perseguições nocturnas por vultos e sombras até entrarem em suas casas. Mitos urbanos que fazem parte do nosso quotidiano e também parte do nosso espólio cultural. Que fazemos questão em passar de geração em geração. 

Reforço o que foi dito. As lendas servem para nos ajudar a acreditar em algo. No entanto são relatos que atravessam gerações e algumas pessoas com imaginação fértil e outras com fraca audição, que vão alterando um pouco a história e o seu objectivo. No final, depende sempre da capacidade de acreditar de quem a ouve e repassa… ou não. 

O lado mais sombrio. O direito ao contraditório assim obriga. 
Há lendas que se formam a partir de maus comportamentos e miséria humana… Recordo que em tempos ouvi falar de um prédio assombrado, na Rua Brito Capelo. Apesar de totalmente reabilitado, os que lá moram acabam por não ficar pois ficam apavorados pelo choro de uma mulher. Os que retêm, na memória, este caso dizem que se trata da esposa de Inocêncio Rato que foi encontrada morta, em casa, com sinais de maus tratos infligidos pelo próprio. Não encontrei qualquer documentação sobre o tema. Contudo, apesar de ser um relato do conhecimento comum vai ganhando força à medida que é conhecido. Quando os que lá moram descobrem ficam mais despertos para o choro da pobre senhora, pressentem o mínimo ruído e acabam por ceder à tentação de acreditar. Tal como acontece aos jogadores do Benfica nas finais europeias. 

Mas a evolução temporal tem diminuído a importância das lendas. As mais fortes ou populares – e que fazem parte da cronologia das localidades – transformaram-se em festivais de celebração dedicados aos transeuntes e acompanhados de grandes quantidades de gastronomia e folclore. Apesar do esforço das autarquias, em divulgar pormenores históricos importantes, tudo se resume à barraca das bifanas, ao leitão espetado no volante e ao preço da cerveja. Os figurantes, com vestidos típicos e as recriações históricas passam para segundo ou terceiro plano… 

As pessoas vivem mais a noite – tão associada e estas manifestações do oculto. Principalmente os jovens. Quase auto-imunes a estas questões. Em plena crise de valores recusam-se a acreditar em algo que não é palpável ou dá dinheiro. E, sinceramente, no estado em que alguns ficam durante a madrugada, movidos pelo álcool e coisas esquisitas para fumar, não os imagino a serem assustados por algum vulto ou sombra. E mesmo que o fossem, acredito que ainda deixavam o vulto fumar um "charrito". Ou então, os manos, davam-lhe um grande enfesto de porrrada!

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