11/09/2018

A ÚLTIMA VIAGEM DO ELÉCTRICO

O dia 11 de Setembro do Ano da Graça de 1993, passará a constituir um dia negro para Matosinhos, com o fim do eléctrico, nomeadamente do “19”, meio de transporte que durante décadas e décadas foi uma referência da cidade e do concelho. No passado sábado, a coincidir com um dia cinzento, os matosinhenses viram partir o “amarelo”. Nós viajamos no último eléctrico “19” até à Circunvalação, limite de “fronteira” com a urbe portuense. Não deixamos de sentir uma profunda tristeza ao descer “dessa casinha com muitas janelas”, que nos deslumbrou na meninice, na ida para a praia de Leça, ou para a “Emília Barbosa”, de gratas recordações.

O último “19”, com a matrícula L-23-nº 223, saiu de Matosinhos (junto do Mercado), às 21 horas e 10 minutos, recolhendo a Massarelos. Como guarda-freio, José de Sousa, que há 4 conduzia, depois de mais de 20 anos de cobrador. O revisor (cobrador), foi António Mendes Gonçalves, natural do Marco de Canaveses, que há 22 anos desempenhava aquelas funções. Pode-se afirmar que foi uma viagem dolorosa. Os passageiros não deixaram de criticar asperamente a decisão tomada pelos STCP, para os quais os motivos económicos se sobrepõem aos de índole afectiva e sentimental.

Na Circunvalação, despedimo-nos dos funcionários dos STCP. José de Sousa, principalmente, era um homem emocionado. Apertou-nos fortemente a mão, enquanto teimosa lágrima lhe aflorava ao rosto. Durante o curto trajecto, os dois homens recordaram o tempo em que os eléctricos circulavam em toda a cidade. Quanto ao “223”, foi construído em 1939, na então Oficina da Companhia de Carris de Ferro do Porto.

Entretanto, na Brito Capelo, foram colocados avisos a dar conta do fim do “19”, substituído por autocarros que, no Castelo do Queijo, recebem os passageiros do “1”, que também deixou de vir a Matosinhos. Ao ler esses avisos, os matosinhenses quase não queriam acreditar no que era irreversível, fazendo comentários nada abonatórios contra os STCP, “metendo” pelo meio a Câmara, que, em seu entender, nada fez para salvaguardar esse transporte que marcou gerações. Enfim: acabou o eléctrico, e Matosinhos ficou mais pobre culturalmente. Será isto progresso?


--> Jornal de Notícias, 1993.09.17 (Cortesia de José Videira)



21/04/2018

CINEMA YORK

O ano de 1995 ficou marcado por uma verdadeira guerra religiosa contra a IURD (Igreja Universal Reino Deus). A contestação teve o seu ponto principal em Agosto, quando uma seguradora se preparava para entregar, à referida Igreja, as instalações do Coliseu do Porto. Num verdadeiro gesto de cidadania vários ilustres da cultura, política e cidadãos anónimos manifestaram-se e conseguiram recuperar a dinâmica e uma referência cultural da cidade.

Em Novembro do mesmo ano, a contestação chegou a Matosinhos. As pessoas mobilizaram-se para conseguir recuperar as instalações do "Cinema York", na Rua Alfredo Cunha que, até então era utilizado não para os filmes mágicos de Hollywood, mas sim, para as sessões de culto em língua brasileira. Os ânimos exaltaram-se dando origem a actos de violência, mesmo com a intervenção policial e apelo à calma pelo Presidente da Câmara Narciso Miranda, em funções naquela altura.

A SIC, através do programa "Perdidos e Achados", recordou algumas imagens e depoimentos do que se passou em 1995 com depoimentos de alguns cidadãos quinze anos depois. Quero deixar claro que esta publicação não se trata de qualquer ataque ou juízo de valor à referida Igreja. A partilha pretende apenas recordar imagens (e testemunhos) do passado da cidade de Matosinhos.

06/06/2017

STA. CRUZ DO BISPO, um olhar

A vida quotidiana das pessoas que partilham a vizinhança com os pesos pesados da indústria. Nomeadamente os camiões, contentores e centrais eléctricas. Mário Antunes mostra o cenário de guerra em que se transformou Santa Cruz do Bispo, Matosinhos…
 
Alegre e bem-disposto. É assim que Mário Antunes recebe quem quer saber mais sobre Santa Cruz do Bispo. É o seu local de residência há mais de quatro décadas. A sua cronologia mistura-se com a do lugar. Por ele combateu e enfrentou as sucessivas forças políticas que não partilham a sua visão. O tempo provou que estava certo. Actualmente, a sua terra, está esquecida, abandonada por más decisões administrativas que deixaram os moradores – de um sítio pacato, encantador e carregado de história – a partilhar espaços com grandes parques para contentores e edifícios de apoio logístico e uma central eléctrica instalada numa rua principal.
 
Santa Cruz do Bispo é uma freguesia do concelho de Matosinhos com 3,75 km2 de área e cerca de 5.600 habitantes (fonte INE, 2014). Em 2013, no âmbito de reforma administrativa nacional, formou uma nova freguesia denominada “União de Freguesias Perafita, Lavra e Sta. Cruz Bispo”. À memória ressalta o património histórico do Monte de S. Brás, Homem da Maça e seu bicho, Quinta de Santa Cruz e Ponte Romântica do Carro. Foi escolhida para acolher o “Parque Diversões Raf Park”. Um projecto para reavivar o conceito de feira popular e parque radical. Ideal para os que procuram aventura e adrenalina. O parque abriu portas a 26.06.2012 para fechar quatro meses depois. Várias desculpas foram apresentadas para esconder uma triste realidade: o projecto falhou e o abandono é evidente. O passar dos anos, constantes indefinições políticas e grande força do vandalismo foram implacáveis para com o parque. Completamente pilhado de tudo que tem valor. É assim que o recinto se apresenta. Um foco de perigo para incêndios, dado o crescimento visível de matagal e insegurança para os romeiros do Monte S. Brás.

Desde 2011, o lugar foi escolhido para acolher um projecto megalómano. A plataforma logística teve como objectivo a criação de dois pólos industriais: o Pólo Gonçalves (Sta. Cruz) e o Pólo Gatões (Guifões). Expropriações urgentes, construções desmesuradas e muito dinheiro para desperdiçar. Foi esta a fórmula que modificou o cenário bucólico e o transformou num postal ilustrado da Síria. Hoje é sabido que este projecto falhou redondamente e será quase impossível reparar as cicatrizes territoriais. A via principal de acesso rodoviário – destinado a retirar a circulação de camiões do centro da cidade – termina, ou inicia, na Rua das Escolas (curiosamente construída para acesso à escola). Há passeios para os peões que terminam abruptamente numa parede, obrigando à circulação pela estrada. Há sinalização vertical que é desrespeitada constantemente. E, contudo parece que a conivência das autoridades é um dado adquirido.

A passagem pela Alameda Infanta Dona Mafalda é quase obrigatória. É o ponto de acesso às novas ruas que foram construídas para o tráfico de trânsito pesado. Baptizada localmente como a “Rotunda da vergonha”, reflecte a falta de capacidade, das entidades responsáveis, em cumprir as mais básicas regras do código automóvel. A Rotunda está pintada no asfalto! Mais depressa se confunde com uma obra decorativa. As passadeiras dos peões terminam no centro da rotunda. Para onde vão? Não interessa. É a política do desenrasque e ausência de responsabilidades.

A visita está terminada. É bem patente a tristeza e amargura do nosso guia. Não é esta a visão que teve há quatro décadas. Não é este o futuro que pretende. Tem muita dificuldade em lutar contra as mentalidades politiqueiras locais que recusam admitir a falha do projecto megalómano de José Sócrates e não têm capacidade administrativa e financeira para devolver alguma qualidade de vida aos moradores cercados pelos contentores, camiões, confusão e barulho ensurdecedor. Mas que cumprem, como qualquer outro, com as elevadas obrigações fiscais. 







06/04/2015

FLORBELA ESPANCA

Nascida em Vila Viçosa (1894.12.08), foi uma poetisa portuguesa. A sua vida, de apenas trinta e seis anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização, feminilidade e panteísmo.

Flor Bela Lobo. Assim baptizada com ausência de progenitor reconhecido. Apesar de ser filha biológica de João Maria Espanca e Antónia Conceição Lobo (mãe de aluguer à época) em virtude de a sua mulher não poder conceber. Foi, contudo, criada em casa do seu pai biológico e da esposa Maria do Carmo Inglesa (madrinha de Florbela). O apelido Espanca é-lhe atribuido após reconhecimento de paternidade (a ela e seu irmão) posteriormente à morte da esposa.

(1903) As suas primeiras composições poéticas: o poema "A vida e a Morte". O soneto em redondilha maior em homenagem ao irmão Apeles. Um poema escrito por ocasião do aniversário de seu pai: "No dia d' annos".

(1907) Escreveu o seu primeiro conto. "Mamã!". No ano seguinte, com apenas vinte e nove anos, a sua mãe Antónia, faleceu. Ingressou no Liceu Masculino André de Gouveia, em Évora, onde permaneceu até 1912. Tomou conhecimento das obras de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco...

(1913) Em Évora, casa com o seu colega de escola, Alberto de Jesus Silva Moutinho. Os anos seguintes ficam caracterizados por dificuldades económicas e constantes mudanças de habitação.

(1916) A poetisa reuniu uma selecção da sua produção, inaugurando o projecto "Trocando Olhares". A colectânea de oitenta e cinco poemas e três contos serviu para, mais tarde, ser o ponto de partida para futuras publicações. Na época, as primeiras tentativas de promoção falharam.

(1917) Sofreu as consequências de um aborto involuntário, que lhe teria afectado os ovários e pulmões. Repousou em Quelfes (Olhão), onde apresentou os primeiros sinais sérios de neurose.

(1919) Saiu a sua primeira obra "Livro de Mágoas", um livro de sonetos. A tiragem, de duzentos exemplares, esgotou-se rapidamente.

(1920) Separada de Alberto Moutinho, desde 1918, pouco tempo após o seu primeiro aborto involuntário, passou a viver com António José Marques Guimarães, alferes da Guarda Republicana. Fixou-se em Matosinhos. O divórcio só viria a ser reconhecido em Janeiro de 1921. Após o casamento, passou a viver no próprio destacamento, no Castelo da Foz.

(1923) Separou-se do seu segundo marido em Novembro. Na sequência de maus tratos infligidos e de novo aborto involuntário. O processo de divórcio inicia-se em 1924 e decretado em 1925. Esta situação abalou-a muito.

(1926) Regressou a Matosinhos, após o seu terceiro casamento, com o tenente-médico Mario Lage (havia sido colega de guarnição de António Guimarães, em 1920, na Foz). Florbela padecia de vários problemas de saúde, tendo sido este médico a tratá-la. Mudaram-se para a casa da família do médico, na Rua 1º Dezembro, em Matosinhos. É aqui que, finalmente, encontra um lar onde todos a tratam bem. Passa as tardes na areia doirada, olhando o mar inquieto e que ela admirava tanto.

(1927) Começou a traduzir romances. No mesmo ano, Apeles Espanca, irmão da escritora, faleceu num trágico acidente de avião. A sua morte foi absolutamente devastadora! Em sua homenagem, escreveu "As Máscaras do Destino". Entretanto a sua doença mental agravou-se, ao ponto de efectuar a primeira tentativa de suicídio.

(1930) Começou a escrever "O Diário do Último Ano". Tentou o suicídio por mais duas vezes, Em Outubro e Novembro, na véspera da publicação da sua obra-prima "Charneca em Flôr", com a ajuda do professor italiano Guido Bottelli!

Não resistiu à terceira tentativa de suicídio, pois foram encontrados, debaixo do colchão, frascos vazios de um sonorífero que tomava regularmente. No dia do seu 36º aniversário, faleceu em casa. Na certidão de óbito, pode ler-se "edema pulmonar", como causa. Depois das exéquias fúnebres, foi a sepultar no Cemitério Sendim.

(1949) O "Órfeão de Matosinhos" colocou uma placa, em gesto de homenagem, na casa onde a poetisa viveu, trabalhou, e morreu.

(1964) A 17 de Maio, os seus restos mortais foram trasladados para a sua terra natal em Vila Viçosa.

(2015) A placa ainda existe na fachada do edifício. Que apresenta um elevado estado de degradação. O património encontra-se abandonado, esquecido e devoluto...



06/10/2014

JAKOB MAERSK

O petroleiro "Jacob Maersk ", durante manobras no Porto de Leixões, perdeu potência e encalhou. Após a entrada de água nos tanques começou a expulsar, a partir do tanque de ventilação, combustível para o ventilador da sala de máquinas. Os vapores deram origem a uma enorme explosão que iniciou o incêndio. De um grupo total de 46 pessoas, 7 pessoas morreram e 6 nunca foram encontradas, tendo ficado presas na sala de máquinas, em 29 de Janeiro de 1975.



25/09/2014

OS POPULARES SRA.HORA

(1986) "Os populares da Senhora Hora"
António Pinto Santos


Um grupo de 10 amigos, decidiu fundar a Comissão de Festas Sanjoaninas, denominada por "Os Populares da Senhora da Hora". O centro das festas situou-se entre a Avda.Fabril do Norte e a Rua do Sobreiro, na Senhora da Hora, local de residência de vários elementos da comissão. Com ajuda voluntária de outras pessoas, conseguiram montar um palco para as festividades e um edifício de apoio (refeitório) para alimentação com comida regional. O "Restaurante a Floresta" (ainda em funcionamento!) serviu como sede da Comissão de Festas. Durante o mês de Junho (Sextas, Sábados e Domingos) celebraram as festas sanjoaninas, abrilhantados pelo conjunto musical "Mosaico", entre outros convidados musicais, como o Rancho Típico de Esposade, Banda Filarmónica de Argoncilhe, Grupo Cavaquinhos de Braga, Grupo Bombeiros Voluntários Fafe, etc.

(1987) Depois do sucesso e saldo positivo, do primeiro ano, resolveram continuar a animar as pessoas da Senhora de Hora (e não só!), com a sua simpatia, dedicação, alegria e contagiante boa disposição! O edifício para a alimentação recebeu melhorias. Uma nova decoração! O palco recebeu novos equipamentos, e os convidados musicais também estiveram à altura. Inclusivé houve fogo-de-artifício! Apesar do intenso trabalho de preparação e logística, os elementos da Comissão de Festas, não esmoreceram e deram sempre o seu melhor em prol das pessoas da comunidade local. Para recompensar o esforço de todos os colaboradores e respectivas familias, no final do mês, organizaram um passeio-convívio.

(1988) Quando se preparavam para celebrar o seu terceiro ano de actividade, receberam, por carta, uma indicação (da C.P.) que as habitações circundantes seriam demolidas, devido à preparação para a chegada do Metro do Porto, e que perante tais condições, não seria possível continuar a celebrar as festividades naquele local. Com grande tristeza e mágoa, os membros da Comissão de Festas, resolveram não procurar um outro local e, como tal, encerrar a Comissão de Festas e respectivas festividades.

(2001) Os membros da Comissão, foram contactados pelo Sport Clube Senhora da Hora, presidido pelo Sr.Vasco Carvalho (ex-patrocinador da Comissão de Festas), a dar conta das enormes dificuldades financeiras que o clube atravessava. Inclusivé com proibição à inscrição de jogadores. Sempre com o objectivo de ajudar as pessoas da "terra", os membros da Comissão de Festas, reuniram e resolveram oferecer o montante disponível, em conta bancária, que rendia juros desde o encerramento. Foram, na altura, entregues ao Clube de Futebol, cerca de 2.500,00 euros.




28/07/2014

UM TEXTO MARCANTE

"Em Matosinhos, nos últimos anos, parece tudo ruir. Foi com esta frase que um jovem, quadro de Matosinhos, abriu, há dias, a sua página no Facebook. Analisada bem a situação ela transmite um estado de espírito. A realidade infelizmente corresponde e só um discurso, bem elaborado, mas muito longe do ambiente que respiramos, consegue disfarçar esta cruel situação. Matosinhos tem perdido quase tudo.

Perdeu emprego. "Perde" os quadros jovens que abandonam a sua terra à procura de emprego. As famílias a endividam-se. A pesca esvazia-se. Matosinhos-Sul perverte-se. O Leixões, mas também o Leça e o Infesta, correm sérios riscos. Perdeu-se Serralves, o museu das conservas, o museu da cidade, o centro de ciências do mar, o museu de arquitetura. Até o Centro de Arte Moderna Geraldo Rueda, inaugurado, com pompa e circunstância, por Passos Coelho e José Maria Aznar, não resistiu mais que dois anos e também se perdeu.

Agora Matosinhos está perto de perder o respeito e a afetividade de Siza Vieira e um dos preciosos acervos artísticos e técnicos. Tal como acontece com talentosos jovens quadros de Matosinhos que "fogem" para o estrangeiro à procura de trabalho que não encontram na sua terra, também o espólio pessoal e técnico do "arquiteto do mundo", Siza Vieira, poderá ir para outros lados.
 
Perdeu-se o espólio de Alcino Soutinho e Fernando Távora que seguiu para a Fundação Marques da Silva, da Universidade do Porto, com os Herdeiros a transmitirem "desencanto" e "tristes" com "a Câmara e atitudes do presidente". Os contratos assinados, com cerca 15 arquitetos, para a doação de espólios caducou e nada foi feito. O museu de arquitetura, nos últimos dez anos, apenas mudou de nome. Deixou de ser museu para ser casa de arquitetura e está praticamente colocado no "arquivo morto".

Em 25 de junho de 2009, "para o número 582 da Rua Roberto Ivens, em Matosinhos, confluem alguns dos mais emblemáticos arquitetos do País, designadamente Siza, Souto Moura, Soutinho, entre outros, governantes do Governo de Sócrates, designadamente, o ex-ministro da Cultura, Pinto Ribeiro e os autarcas, todos os autarcas, na altura eleitos pelo PS agora todos contra o PS. O trânsito fica interrompido, filas de carros de alta gama, chamavam à atenção. Era a inauguração do Centro de Documentação Siza Vieira na antiga residência do arquiteto. Foi uma festa. Segundo reportagem da Visão "...esta seria a sede provisória e embrião da futura Fundação Casa da Arquitetura, a edificar numa encosta do concelho, em terrenos cedidos pela APDL, sob projeto do próprio Siza. O edifício teria, anunciara-se, 11 mil metros quadrados, incluindo biblioteca, sala de conferências, auditório, gabinete de estudo e manutenção de espólio, área expositiva,arquivo, cafelaria e parque de estacionamento, na maioria áreas públicas divididas por oito pisos. Grandioso? Sim. Era tudo grandioso. Governo Sócrates e Câmara não faziam por menos. Sim tudo grandioso, mas apenas nos discursos. No início, admitira-se um "custo de 20 milhões de euros, com recursos a fundos comunitários, mas as coisas não iriam passar-se exatamente assim."

Bom demais, não acham?? Havia mais. "Quize arquitetos assinam, na ocasião, um protocolo com a autarquia, no qual manifestam intenção de ceder os respetivos espólios à futura Associação..." Siza emocionou-se e manifesta uma grande alegria por ser dado o "primeiro passo para o arranque da casa da arquitetura" que antes era Museu. Ficou entusiasmado. Viajou, para se inspirar, por importantes museus de arquitetura do mundo, Moscovo, frankfurt, Roterdão e Montreal. Tudo Museus, mas em Matosinhos, para se marcar a diferença, chamar-se-ia Casa de Arquitetura. Em 2011, Siza, apresentou o projeto e maqueta a outra ministra de Sócrates (ministra da cultura Gabriela Canavilhas).

Álvaro Siza Vieira sempre considerou que "a Casa de Arquitetura é algo necessário para não se perder o arquivo arquitetónico nacional". O Governo de Sócrates foi mais longe ao afirmar "... A Casa da Arquitetura é um tributo aos grandes arquitetos que nasceram no norte e que emprestaram o seu nome ao prestígio que Portugal granjeia do ponto de vista internacional." Tudo muito bonito. Bons discursos, mas, como se lê na Visão, ainda não havia casa. Nem museu. Nem sequer primeira pedra. Nada. Só sombras. Discursos. Promessas. Exercício da "ciência" da ficção. "Não tinha passado dois anos sobre aquele final de tarde promissor, no dia dos 76 anos de Siza, e já os custos estimados, pela autarquia, para a obra tinha mais do que duplicado." Passados cinco anos, nem 20, nem 43 milhões. Nada. Mesmo nada. Existem notícias, papel, discursos, mais discursos, promessas, muitas promessas, com outras tantas ilusões. Um autentico exercício de ficção. Tal como a delegação de Serralves, o museu das conservas, o museu da cidade, o Centro de Arte Moderna Geraldo Rueda, também o museu ou casa (como queiram) de Arquitetura, ficará para a história como um "museu de papel no arquivo morto" para os nossos filhos e netos tentarem saber como é isto possível acontecer. Um dia ainda vou ouvir um discurso onde se afirma: "se A. Costa ganhar teremos museu". Perante tanta evidência e factos inequívocos começamos a perceber o alcance da frase da autoria de um quadro jovem Matosinhense quando, de forma expressiva, escreveu na página do Facebook: "Em Matosinhos, nos últimos anos, parece tudo ruir..."


(2014.07.23 - JORNAL MATOSINHOS, Narciso Miranda)



12/04/2014

RUA BRITO CAPELO

O estado de uma das principais artérias de Matosinhos é hoje o reflexo da situação actual do próprio concelho. Esquecido, abandonado, vandalizado, moribundo! O passar dos anos foi devastador para esta zona comercial, outrora cheia de vitalidade e movimento! As constantes alterações, impostas em nome do comércio, não surtiram efeito acabando por afastar as pessoas e encerrar as principais lojas. Comparada à Rua Sta.Catarina, não conseguiu igualar o seu esplendor. Nunca se conseguiu decidir, com clareza e objectividade, o rumo a traçar, tendo em vista o sucesso comercial. Culpados? Penso que neste momento será um tema pouco relevante... o mal está feito! Grande parte das lojas encerrou definitivamente! Mais investimento? O panorama actual não é o melhor para conseguir atrair novas lojas e mais investimento. A inércia das forças da polícia, o desrespeito dos condutores pela sinalização, o estacionamento selvagem, os actos de vandalismo, o comércio de rua ilegal, o péssimo estado do pavimento, a iluminação pública provisória há 10 anos, entre outros... Agora, tenta-se (desesperadamente) revitalizar o comércio recorrendo a modas estrangeiras com o "modus operandi" português...

Hoje, 12 de Abril de 2014, decorreu o "Flea Market in Matosas". Uma pequena feira, de artigos usados à procura de um novo dono! Uma actividade que necessita de um amplo espaço de circulação para peões, carrinhos de bebé e pessoas de mobilidade reduzida! No entanto, a rua é dividida pela via-férrea central destinada ao Metro, cuja empresa responsável pela circulação não foi avisada. Rapidamente a rua ficou apinhada com pessoas, que ignoraram por completo os veículos que circulavam no respectivo canal. De nada serviram os avisos sonoros em virtude do volume da música instalada na rua! Continua a existir um elevado grau de negligência ao nível da prevenção e segurança...



GRUA TITÃN

Nem todas as memórias são felizes. Muitas vezes a realidade é cruel e dolorosa. Deixa marcas! E um sentimento de revolta interior quando há perda de vidas humanas. E mais revoltante se torna quando se chega à conclusão que se podia (e devia!) ter feito mais ao nível da prevenção e segurança! Mas neste país, os valores monetários ainda são mais importantes que os valores humanos!

(2012) Um trabalhador morreu, a 12 de Abril, num incêndio, precedido de uma grande explosão, que deflagrou no molhe Sul do Porto de Leixões, em Matosinhos. O acidente provocou ainda um ferido grave, já transportado para o Hospital S.João, no Porto, e um número indeterminado de feridos ligeiros. O incêndio teve origem na queda de uma peça do guindaste titãn, que estava a ser desmantelado desde o dia 3, sobre o “pipeline” que liga o local de atracagem dos petroleiros a um depósito de armazenamento de combustível da Repsol. O combustível nas condutas não estava cortado enquanto se efectuavam os trabalhos com maquinaria pesada, com faíscas de rebarbadora e calor de maçarico. Uma faísca terá provocado a explosão e consequente incêndio. Uma grua que apoiava a desmontagem do Titã, uma enorme estrutura de arqueologia industrial que a administração portuária decidiu recuperar e mudar de local de implantação, terá também tombado. O local do acidente é referido pela Proteção Civil nacional como Doca 1, uma zona onde decorrem também as obras de construção do edifício de acolhimento do novo terminal de cruzeiros de Leixões.




07/04/2014

FESTAS SENHOR DOS PASSOS

A procissão do Senhor dos Passos realiza-se no 5º domingo de Quaresma. Parte da Igreja Matriz de Leça da Palmeira e evoca a condenação de Jesus. Em percursos diferentes saem os andores com as imagens do Senhor dos Passos e da Nossa Senhora da Soledad, a que se juntam outras figuras bíblicas, encontrando-se na pequena jóia que é a Capela do Corpo Santo, onde decorrem as cerimónias religiosas. Momento de intensa religiosidade, é marcado pela condenação de Jesus, facto assinalado pelos fatos e laços pretos dos membros da Confraria, sinal do pesar que perpassa aquelas almas e as de milhares de pessoas que se apinham nas ruas, janelas e varandas do percurso. Reza a lenda que os leceiros “guardam o Sol na arca” para este dia tão especial.


FESTAS SÃO BRÁS

A festa do S. Brás ocorre na freguesia de Santa Cruz do Bispo em honra de S. Brás e de Nossa Senhora do Livramento. Celebra-se no 1º Domingo após o dia 2 de Fevereiro e tem o seu apogeu numa procissão que sai da Igreja Matriz de Santa Cruz do Bispo até ao Monte de S. Brás, onde está a capela do Santo. Há missa campal de manhã e os romeiros compram utilidades e recordações, saciam a fome e a sede nas tradicionais barraquinhas ou juntam-se na mata envolvente para alegres piqueniques. Porém, disfarçadamente, as raparigas casadouras pedem ao Homem da Maça que interfira para casarem depressa.


02/04/2014

A.P.D.L. (terminal contentores)

(2011) Tem início o plano de investimento em construção e expropriação de terrenos para o novo terminal de contentores do Porto de Leixões.

(2013) O governo ainda “encara” a possibilidade de lançar o concurso público para o início da construção, apesar das casas já expropriadas.

(2014) O início da construção. Contudo, no mês de Março, as obras estiveram suspensas devido à descoberta de ossadas nas escavações da obra. Uma equipa de arqueólogos analisou o local e o respectivo achado, não tendo encontrado valor histórico significativo. As obras prosseguiram…




01/04/2014

PARQUE DIVERSÕES RAF PARK

“Um parque de diversões situado na cidade de Matosinhos, com várias áreas de entretenimento: infantil, radical, feira popular, aquática e praça alimentar. Proporciona divertimento a crianças e adultos disponibilizando pacotes de actividades para grupos e famílias”

(2012) Inaugurado a 15 de junho e de portas abertas desde o dia 26 do mesmo mês, o Raf park fechou inesperadamente menos de 4 meses após a abertura, tendo na altura a administração alegado estar em “obras de manutenção” e garantindo estar já previsto o encerramento do parque radical durante o Inverno. A exploração da estrutura estava então a cargo da “Ritmolândia”, uma empresa do grupo “Fielinvest”, com sede em Penafiel.

No âmbito dos “esforços” desenvolvidos “para encontrar novo promotor”, a autarquia diz ter feito “abordagens” à empresa espanhola “Obras Y Reformas el Castor, SL”, proprietária de “Sociedades Madrilena de Atracciones, SA” marca “Mundial Park”, que demonstrou interesse e capacidade de instalar um parque de diversões tipo feira popular no referido espaço, reabrindo o parque em meados de Agosto. 

(JORNAL PORTO 24, 2013.07.29)

(2013) O património encontra-se devoluto e abandonado.




CENTRO HÍPICO MATOSINHOS

“Com a presença de elevado número de cavaleiros, o concurso de saltos nacional foi disputado com o maior entusiasmo em Matosinhos, no excelente hipódromo de Leça da Palmeira.

Com provas para cavaleiros juvenis e juniores que se portaram como verdadeiros mestres e para cavalos das mais diversas categorias, o concurso de saltos nacional entusiasmou uma assistência numerosa e interessada.

Bem organizado pelo Clube Hípico do Porto, o programa preencheu três dias e agradou, plenamente, aos amantes da nobre arte de cavalgar em toda a sela.”




ALMIRANTE AMÉRICO TOMÁS

“Saído de Lisboa, no Império, deslocou-se ao Norte, para presidir a várias cerimónias, com evidência nas programadas em Matosinhos, o Sr. Almirante Américo Tomás. Ao encontro do navio, partiram para o mar, cerca de duas centenas de traineiras. Foi com esta escolta que o paquete entrou no Porto de Leixões, saudado pelas sirenes das embarcações embandeiradas em arco.

Recepção própria, da gente do mar, prestada ao marinheiro eleito para a chefia do Estado teve espectaculosidade impressionante. O povo do concelho associou-se, ao acto festivo, juntamente com as autoridades que no cais apresentaram cumprimentos ao visitante.

Houve a saudação regulamentar, ao Supremo Magistrado da Nação, seguida do desfile da Guarda de Honra. O presidente Américo Tomás dirigiu-se para a tribuna erguida no novo cais do Norte sob uma verdadeira chuva de flores. Presidiu a uma sessão solene e falou das principais complicações para referir a magnitude do apetrechamento do Porto de Leixões.

Usou da palavra para salientar a comitiva eminentemente nacional de Salazar, que tornou possíveis empreendimentos de vulto, e depois condecorou com vários graus da Ordem do Infante, os engenheiros Henrique Schreck, Pullman e Almeida Cunha Leal.

No fim da sessão desterrou uma lápide de granito num dos pilares da Ponte Norte após ter assistido ao desfile dos veículos do Porto.”




16/09/2013

ACTIVA (J.Serrano Júnior)

(1929) Conservas Activa (J.Serrano Júnior)
José Rodrigues Serrano Júnior


(1929) A fábrica de Conservas Activa, situava-se no gaveto da Avda.Menéres com a Rua Mouzinho Albuquerque. A história da Activa foi um êxito fulgurante no progresso conserveiro do Norte na sua época, falando eloquentemente em todo o mundo, a excelência das suas marcas "ACTIVA" "LALITA" "LEIXÕES", etc... Capacidade de produção 45.000 caixas (ano).

(1936) Tinha oficina de vazio, serralharia, dependência para habitação do pessoal feminino. A fábrica tinha já sido modernizada pelo exterior e isso exigia que o interior não fosse abandonado, efectivamente, foi totalmente transformado com teto novo e mais alto, dando o aspecto peculiar das grandes fábricas.

(1940) São efectuadas obras assinaláveis na fachada, realizadas pelo arquitecto Amoroso Lopes. A construção de vivendas para o pessoal director, refeitórios para operários e uma creche para os filhos das operárias, foram obras notáveis. A fábrica tinha 200 trabalhadores.

(2013) O património foi demolido. Deu lugar a habitações de luxo e galerias comerciais.


22/07/2013

FESTAS MÁRTIR S.SEBASTIÃO

A Festa do Mártir S.Sebastião é toda dos pescadores de Matosinhos. Da Igreja Matriz sai uma majestosa procissão que vai até à Doca Pesca. Os pescadores exprimem ao seu santo padroeiro toda a sua devoção e pedem-lhe um mar farto e seguro. Vestem os seus filhos de anjinhos, carregam o andor do Mártir S. Sebastião e engalanam os seus barcos para que sejam benzidos, juntamente com o mar.

No Domingo de manhã assistem a uma missa solene na Igreja do Bom Jesus de Matosinhos. A festa religiosa não acaba sem um espectáculo, de variedades e de ranchos folclóricos, seguido de um magistral fogo-de-artifício.


08/06/2013

FÁBRICA DA TRIPA

(1937) "Soc. Prod. Óleos e Farinhas de Peixe, Lda."
Instituto Português de Conservas de Peixe


(1937) A 5 de Janeiro, o "I.P.C.P." fez inaugurar solenemente a Fábrica de Farinhas de Peixe que, de harmonia com os industriais das conservas, havia instalado em Matosinhos.

Do primeiro concelho de administração fizeram parte o Sr. Eurico Felgueiras, Afonso Barbosa e Dr. Fernando Matos. Apesar da cerimónia de inauguração, a caldeira a vapor acendeu-se pela primeira vez a 11 de Novembro de 1936. Nos primeiros anos de produção apenas nove fábricas forneceram os seus detritos. Apesar de tudo, esta unidade estava muito bem equipada e tecnicamente bem dirigida.

As condições higiénicas das fábricas de conservas foram melhoradas por terem deixado de trabalhar os seus resíduos nas próprias instalações.

Nos últimos anos da década de 80, um dos inconvenientes era o mau cheiro, desagradável que incensava grande parte da cidade e assim, teve de ser encerrada.

(2013) O património foi demolido. Deu lugar a habitações de luxo.




FESTAS SENHORA DA HORA

A Senhora da Hora, depois de ter sido elevada á categoria da Freguesia, viu difundir-se extraordinariamente a devoção à sua padroeira, cuja reputação ultrapassou as próprias fronteiras e das terras mais distantes do país ocorriam inumeráveis peregrinos à ermida para deporem aos pés da Virgem dos Milagres as ofertas prometidas em horas aflitivas. No aprazível recinto fronteiro à Capela, os vendedores e feirantes erguiam as suas improvisadas tendas e os donos dos engenhos recreativos estendiam as suas máquinas de diversão, cavalinhos, aviões, carroceis etc., que alegravam os romeiros. As moças, por sua vez, bebiam a água "milagrosa" da Fonte das Sete Bicas, que tem um caudal com uma pujança assombrosa mas sem virtude alguma, ficando convictas de que isso lhes garantiria para breve o almejado matrimónio. A referida fonte foi construída no ano de 1893, sem quaisquer características arquitetónicas que mereçam especial referência, onde tem esculpido, em baixo relevo, os seguintes dizeres: 

"1893 Aqui apareceo Nossa Senhora da Ora louvado seja o Santíssimo Sacramento"

Por sua vez as mães, no dia da festa, no momento da elevação das hóstias e cálice da missa, davam a beber aos seus filhos pequenos, um "remédio", de fabrico caseiro, com a suposta virtude de os imunizar das maleitas da epilepsia ou da gota. No final da cerimónia e depois de darem três voltas á capela, os familiares da crianças e a maioria dos romeiros iam, felizes, com a cesta do farnel expandir a sua alegria e "matar a fome" provocada por tão longa jornada, levando no seu espírito folgazão a vontade de voltar no ano seguinte. Nos dias de hoje e desde há uns anos atrás, a romaria da Senhora da Hora deixou de ter o brilhantismo de outrora caindo em profundo desuso por parte dos romeiros que todos os anos a visitaram dando-lhe enorme vivacidade e grande brilhantismo, o que nos leva a pensar que dentro de alguns anos, a continuar o desinteresse e a desmotivação, esta apenas se limitará às festividades religiosas em honra da padroeira, pelo que se perderá, irremediavelmente, toda a tradição de grande romaria. A falta de espaço físico para a montagem das diversões, a inexistência de raiz da nova população, os enormes encargos financeiros com a sua realização, a proximidade de data com inicio das festas ao Senhor de Matosinhos e o desinteresse dos agentes económicos e dos habituais promotores das festividades, são as causas mais directas que inviabilizam a realização de uma festa digna e que outrora tanto prestígio teve.




04/05/2013

REAL COMPANHIA VINÍCOLA

(1899) "Real companhia vinícola"
(sem indicação do fundador)


"É mais um dos vários impasses que o nosso Concelho enfrenta. É mais um dos projectos que não sai do papel, que não chega a conclusão nenhuma, que mais não tem sido do que uma série de intenções, projectos, promessas e anúncios. Como tantos outros exemplos, o processo da “Real Companhia Vinícola” tem vivido vários retrocessos. Muitos projectos já houve para aquele espaço, para revitalizar um espaço centenário, que se confunde com a própria história de Matosinhos e que definha, a cada dia que passa, votado ao abandono e à degradação.

Lembro, apenas, alguns dos projectos já anunciados e prometidos para a “Real Vinícola”: um hotel de charme, uma escola de hotelaria, uma enorme praça “à espanhola”. Vários destinos, mas nenhuma decisão ou concretização. Esteve, também, para acolher o tão ambicionado e falado Centro de Ciências e Tecnologias do Mar. Opção que, aliás, sempre defendi para aquele espaço, que deveria e deverá acolher um equipamento público, capaz de dar vida não só ao espaço em si, como à zona envolvente, colocando, definitivamente, um ponto final na degradação e vandalismo de que tem sido alvo. A verdade é que, até hoje, nada aconteceu. Nada passou da intenção e do papel.

A Câmara anuncia, agora, que a prioridade é recuperar o espaço, colocando de parte a demolição. O objectivo, segundo o que agora, através da imprensa, é anunciado, passa por reabilitar o conjunto de edifícios e nunca demoli-lo, sem quererem, no entanto, avançar com maiores pormenores sobre o projecto em concreto. Obviamente, a ser verdade mais esta intenção, não poderei deixar de estar de acordo. Até porque sempre afirmei – e volto a reafirmar no que, também, a este caso diz respeito – destruir pedaços da nossa memória e do nosso património é, de facto, sempre um erro histórico e estratégico.

Este edifício, que ocupa 11 mil metros quadrados, está em vias de classificação como Património Arquitectónico, propondo o Plano de Urbanização a sua salvaguarda e o uso de equipamento público. Por isso, também por isso, temos de estar atentos. Até porque não temos, no mínimo, como ficar tranquilos com este – mais este – anúncio por parte da Câmara de Matosinhos. Basta lembrarmos o que aconteceu com a “Algarve Exportador” e a “Rainha do Sado”. Dois espaços que fazem parte da nossa memória colectiva, da nossa história e do nosso património e que foram completamente arrasados e destruídos. E, acima de tudo, não para ali vermos nascer uma zona arborizada, um jardim público, um espaço de equipamentos públicos, uma zona para o cidadão poder usufruir, respirar, sentir e viver a cidade. Não. Dois pedaços extremamente importantes da nossa história foram arrasados e demolidos para ali nascer mais betão armado. Para ali nascer mais habitação, onde esta já não é mais necessária. Para ali nascer um hotel e que apenas aparece para branquear um processo especulativo.

Por isso, também por isso, temos de estar atentos. Não podemos deixar mais um elemento da nossa memória ser arrasado, sobretudo, para, uma vez mais, fins especulativos. A “Real Vinícola” foi o primeiro edifício industrial construído em Matosinhos Sul, entre 1897 e 1901. Os edifícios dispõem-se no perímetro do quarteirão, deixando no interior um enorme pátio, onde a linha férrea, que fazia ligação às docas do porto de Leixões, tinha o seu terminus. Foi o primeiro edifício a possuir uma das primeiras estruturas fabris a vapor da Região. Falamos de quase um quarteirão da nossa cidade que, por todos estes motivos, deve, sim, ser recuperado. O mais rapidamente possível. E com um único objectivo: a sua devolução à cidade e aos cidadãos."


(2010.03.12 - JORNAL MATOSINHOS, Narciso Miranda)